EU NÃO COMPREI UM DESERTO

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Estar viúvo aos 70, depois de viver um longo tempo com uma mulher que se amou é como dormir um dia e acordar no deserto. Olha-se para um lado e para outro e só se vê dunas, um mar de areia fina e em cima o sol, inteiro.

No dia seguinte mãos gentis te tiram do deserto e te colocam nas portas do cemitério.

Terminada a cerimônia voltas para a casa vazia e não estás mais no deserto mas na cidade, às voltas com os papéis e a obrigação de sobreviver.

Voltas a dormir e acordas de novo no deserto.

Passa então um beduíno e te oferece para comprares um terreno no deserto, que no entanto tem dentro dele um oásis com água e tâmaras para que sempre até o fim da vida matarão a tua sede, darão conta da tua fome e te abrigarão do sol.

Você recusa a oferta porque quer fazer alguma coisa além de puramente sobreviver das pequenas glórias do passado.

Decide então por um mercador que te oferece um terreno, não muito grande, na periferia da cidade, para que durante 15 anos (está com 70), semeie alguma coisa pagando um módico aluguel ao dono.

A terra é boa e fértil e tua tarefa é torna-la produtível mas você não é um camponês que precisa plantar batatas e cenouras para vender no mercado. Você já tem do que viver e o mercador está interessado apenas no aluguel.

O que plantar então? Será mesmo preciso plantar alguma coisa?

O que você sabe até agora não é muito mais do que a decisão que tomou:

Decidiu não comprar um deserto.

EU NÃO COMPREI UM DESERTO

3 comentários sobre “EU NÃO COMPREI UM DESERTO

  1. Lidia disse:

    Lewis Carroll traz em seu mágico Alice no País das Maravilhas um instigante diálogo.
    Alice: Você poderia me dizer, por favor, qual o caminho para sair daqui?“
    Gato: Depende muito de onde você quer chegar.
    Alice: Não me importa muito onde…
    Gato: Então, não faz diferença por qual caminho você vá.
    No que se refere ao seu relato no blog, o importante é que você soube que direção seguir, ainda que por exclusão: não comprar o terreno no deserto. A consequência dessa escolha a vida decidirá

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    1. Viver não é sobreviver, no caso do terreno do deserto. Viver é acrescentar alguma coisa diferente ao mundo nem que seja uma receita nova de mousse de limão mas como não sei cozinhar preciso escrever alguma coisa nova no plano pessoal ou nas minhas áreas acadêmicas. Vou tentar e acho que vou conseguir. Se voce conhecer alguma pessoa com a qual eu possa conversar para editar os textos deste blog seria bem legal.
      grande abraço
      Fernando

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  2. Difícil é fazer opções, quando o simples existir parece descartável … Mas, a opção é necessária e o viver procura brechas com novas facetas, novas curiosidades … É que nem água cristalina que rompe pelas rochas … existe uma urgência no viver!! O prazer em escrever, desabafar, compartilhar são sinais de vida, que cobra seu papel. O presente cutuca e mostra novas formas de ser, de criar coisas úteis, lançar novos legados… enfim, trazer novos conteúdos de valor. Muitos ganharão com essas novidades !!!

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