VEJO O CORPO

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Falava Roland Barthes que seu corpo só existia para ele quando estava com enxaqueca ou em tensão sexual.

Meu corpo tem me dado ao longo da vida sinais de existência, concretos também mas de outra natureza: ele entra em choque, no sentido literal da palavra, quando coisas graves acontecem comigo no plano afetivo.

Que foi o caso, é claro, do desaparecimento de minha companheira de 30 anos.

É como se, nestas horas, ele me dissesse: “entro em choque, logo existo”.

Entendi a mensagem e seu desdobramento inevitável: “faça alguma coisa meu dono”.

Estou dando-lhe a ração que recoloca seu fluxo químico no caminho habitual, um personnal trainner e uma bicicleta.

Com isso ele vai sossegando, virando uma tela impressionista e, pouco a pouco, reganhando a sua antiga opacidade.

Posso então (re) ver o outro lado, o exterior, ou seja eu-no-mundo.

O que ver? Como ver?

Há sempre um lugar no mundo para todos, simplesmente porque todos fazemos parte do mundo.

Que lugar é esse cabe-me descobrir, com o legado do meu passado e com as armas do pensamento.

No fim posso não descobrir mas só o processo de tentar já vale a pena: é uma forte razão para viver.

VEJO O CORPO

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