APRENDI (?) A DIZER NÃO

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Quando, voluntariamente, a criança começa dizer NÃO começa a existir como pessoa individualizada.

É preciso dizer a palavra NÃO: negar-se simplesmente a fazer algo sem pronunciar a palavra NÃO não é um ato simbólico mas apenas um comportamento (os bichos podem fazer isso também).

É claro que no adulto a palavra NÃO precisa estar imersa num Discurso do Não, numa cadeia significante baseada em argumentos que justifiquem tal NÃO.

É preciso por certo dizê-lo delicadamente; mas o que tenho feito ao longo da vida é apenas exercitar   o advérbio (que como todos deveriam saber é a palavra que modifica o verbo, o adjetivo e o próprio advérbio).

Em resumo, o que tenho feito é delicadamente não dizer NÃO.

De tanto repetir este não-ato acabei descobrindo porque fujo do NÃO, descoberta de resto completamente banal: temor da reação da vítima, que pode sentir-se pessoalmente machucada, desprezada, frustrada ou, mantendo-se firme no seu lugar, machucar-me, desprezar-me, desconsiderar-me.

É sempre necessário ser delicado mas a pergunta que fica é sé possível dizer NÃO delicadamente.

Há uma coisa cultural nossa, brasileira, que resvala a hipocrisia: fingimos, para ser delicado, dizer sim ou talvez quando NÃO seria a resposta mais lógica.

Não estou querendo me desculpar pela cultura mas é uma dificuldade a mais.

Consegui recentemente dizer NÃO não sem antes dizer SIM, depois NÃO, depois TALVEZ e, definitivamente, NÃO.

Para seres como eu a saída, na dúvida, talvez seja anteceder o NÃO com a consagrada fórmula: VOU PENSAR.

APRENDI (?) A DIZER NÃO

8 comentários sobre “APRENDI (?) A DIZER NÃO

  1. Esta crônica também serve para mim. Estou começando agora a criar coragem para dizer “não” a meus amigos, por medo de ferir ou de constranger… mas é necessário fazer isto… pela necessidade de escolher minhas próprias opções…

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    1. Fernando, estou lendo aos poucos, para curtir melhor… são textos cheios de ternura, raiva, emoção, saudades, tristeza, amor, mas, revelam uma tentativa de manter os pés num chão, que, algumas vezes, insiste em fugir de seus pés … coragem, pois a vida prossegue e continuamos a fazer parte dela !!! Continuamos exercendo nossos papéis familiares e de amizades …

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  2. Em algumas situações, não sou “pessoa individualizada”, pois tenho dificuldade em dizer “não” a meus amigos… receio de magoar ou constranger… mas já estou aprendendo, também… demorei, mas estou chegando lá… assumindo-me, escolhendo minhas próprias opções.

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