O QUE SAI DO PORÃO

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O tempo antes fluía, era invisível, agora não flui mais, passa a ser visível, concreto e a ser vencido, a cada dia, a cada fim de semana.

Tornou-se presente, a ser preenchido por algo que implica decisões a cada momento: “o que fazer agora”?

Quando o tempo fluía esta angustiante pergunta não se colocava porque a vida se confundia com um scrip pré programado a ser executado por um casal ou algum tipo de relação humana permanente.

De fato, o scrip pré-programado, que gera o fluir do tempo, é feito somente para ser executado por um casal, ou por um clube de amigos ou por grupos de pessoas reunidas por uma condição comum.

A individualidade constitutiva do ser do homem, o fato de nós, humanos, sermos coisas unitárias e não, constitutivamente, por exemplo, uma matilha de cães selvagens, ou o fato de, quase obrigatoriamente, abdicarmos ou nos submetermos, ou comprometermos a nossa individualidade em favor de relações humanas mais ou menos permanentes, pode gerar algumas importante consequências.

Continuamos a ser, constitutivamente, individualidades mais ou menos reprimidas, soterradas nos confins do inconsciente.

Consegue-se ver isso claramente quando, como no meu caso, a individualidade reprimida emerge dos subterrâneos e mostra para você a cara dela, assustada e perdida por estar tantos anos confinada num porão, sem ver a luz do dia.

Neste caso, e em outros, a primeira providência, quase imediata, instintiva é manda-la de volta para o porão de onde saiu por acaso, por engano, involuntariamente.

E ai voltar a ser uma relação: qualquer coisa parece melhor de que restituir-se a individualidade e ter que encarar o eu recalcado.

Mas tal decisão implica, entre outras, condições objetivas de possibilidade.

Isto significa que quando se tem 40 anos ainda é possível mas quando se tem 70 as condições de possibilidade reduzem-se quase a nada, caso você deseje que tal relação te traga felicidade e paz de espírito.

E você percebe que relacionar-se consigo mesmo não apenas é a única solução mas uma oportunidade única de conhecer-se.

Vale a pena?

Depende do que sai do porão: nem todos os que ficaram lá são seres gentis e apenas assustados.

E no fundo, todos sabemos quem pusemos lá.

O QUE SAI DO PORÃO

3 comentários sobre “O QUE SAI DO PORÃO

  1. Odete Santelle disse:

    Muito bom… Escondemos nossas mazelas num baú, num porão e quando menos esperamos, bum, essas coisas aparecem… Só que depois de tanto tempo esses fantasmas já não assustam, só aparecem: mostram marcas que já não doem mais. Dou uma “banana” pra eles…

    Enviado do meu iPhone

    >

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  2. O reencontro da individualidade, após feliz convivência de casal, é assustador. Fica muito explícita, pois não dosada pela fluência compartilhada com a individualidade da pessoa amada. Muitas perguntas sem resposta e muitas respostas sem serem perguntadas… Exige muito esforço para criar um novo ritmo de vida, o fazer-se útil para si e para os outros…

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