O FIM

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Hoje, quando escrevo isso, é dia 9 de março de 2016 e quero fechar a porta da alma que abri com estes escritos.

Tua morte foi um horror, como pode fazer aniversário?

Mas faz, o que fazer?

Não consigo deixar de pensar que o destino foi injusto comigo: se acreditasse em Deus teria carradas de razão para insultá-lo valendo-me dos piores adjetivos aprendidos em estádios de futebol e com péssimas companhias.

Ando cansado de ver-me todo dia no espelho e de ver-te apenas iconizada na tela do computador.

Joguei fora, bem acondicionada num horrível saco preto de lixo, a alegria de viver, que foi recolhida pelo caminhão e jogada em algum canto desta cidade inóspita.

Você sempre me dizia que um vidente havia dito que morreríamos os dois velhinhos e juntos e eu sempre acreditei…

Como acho que em algum lugar ainda estás vou tentar conversar contigo e te pedir uma coisa apenas: me deixe ser completamente feliz, nem que seja um dia, mesmo algum momento do dia, só para experimentar o gostinho.

Encerro aqui este blog por enquanto.

Ele completou, como eu, um ano de luto pela morte de minha amada Ana e me ajudou muito

Quem sabe consigo publicar isso ou retorno com novos textos.

Um abraço forte a todos que me seguiram

Fernando

O FIM

A LUZ NO FIM DO TUNEL

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Para o dia 9 de março de 2016 faltam alguns poucos dias, mas medir a vida em datas redondas, repito, é apenas um rito, um marco arbitrário.

Vamos lá… quem sou eu para des-ritualizar o quer que seja quanto mais estes 365 dias que se passaram desde que teus grande olhos verde-azuis não olham mais.

Eu, no entanto, vejo-os na tela do computador todos os dias olhando fixamente para mim.

Portas uma blusa roxa mais aqueles brincos de cigana e estás sentada em uma cadeira cor de laranja na cantina da Escola de Trabalho Social de Granada, com um singelo copo de café com leite à tua frente.

Sorris, levemente e teu ombro esquerdo guarda uma bolsa preta a tira colo.

A mão direita fazendo um ângulo de 90 graus pousa sobre a esquerda, vendo-se nesta uma aliança.

Janelas, cadeiras de plástico dispersas, tubos coloridos aderidos a paredes levemente amarelas e portadores de alguma coisa comunicante, compõe a cena. Discretamente, quase apagado por um fundo claro vê-se, no espaço de fora da cantina, a perna de um homem sentado e ramagens dispersas

Não, não se trata de qualquer coisa parecida com uma natureza morta porque nada há de natural na cena (vamos supor ramagens de plástico) desde a tela do computador até todo o conteúdo da mensagem visual e nem estás morta porque um morto não olha assim para a gente.

Diria ao contrário que em vez de Natureza Morta temos Cultura Viva.

De noite eu apago a tela e ai vamos os dois dormir, cada um na sua respectiva dimensão, o sono dos justos.

Devo confessar, querida, que preciso ainda tomar uns comprimidinhos para ter direito aos “braços de morfeu”.

A tela marca 19:41 de uma segunda feira dia 22 de fevereiro de 2016.

Confissão final: monto todos os dias, religiosamente, a mesa do café da manhã com dois pratinhos, duas xícaras, uma faca e uma colher de chá, tudo da mesma forma e cor.

Mas, perdoe-me, quando alguém aparece e vai me pegar em flagrante escondo rapidamente a farsa; mas isso dificilmente acontece porque, como você sabe muito bem, sempre fui um madrugador.

Até amanhã, no café.

A LUZ NO FIM DO TUNEL

COMPRIMIDOS, NOTEBOOK E SUOR

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A outra face da “moeda” depressão, a positiva, depois que consegue-se sair da negativa, serve para entender como funcionamos, nós seres humanos, ou como podemos funcionar, para obtermos no final bons resultados (lembrando que tudo é sempre provisório, instável).

A depressão e sua superação podem ser vistas, na minha experiência, como um evento químico, físico e simbólico.

Nossa química corporal habitual muda de rota e se desequilibra, sinaliza sua presença enviando para o corpo variado tipo de mensagens que configuram um complexo de sintomas e ao mesmo tempo suspende o movimento físico como se um permanente peso sobre dorso impedisse qualquer outra coisa que não a posição horizontal.

Percebemo-nos então como tendo um corpo porque sua revolta contra nós o torna visível e caso nada façamos ele continuará imperando.

Recorremos então à química medicamentosa para colocar a química desregulada nos trilhos.

Se bem sucedida conseguimos verticalizar, sair do sofá ou da cama e ganhar de novo a posição ereta, o que viabiliza o movimento.

Há então que aproveitar e andar, movimentar-se de todos os modos, promover nosso deslocamento constante no espaço.

E, finalmente, pensar, simbolizar, humanizar-se, comunicar-se, pôr-se em palavras e discursos dirigidos para si mesmo e para os outros.

Dizia Descartes ter um corpo, uma máquina mecânica independente, passível de ser examinada como uma coisa externa, como, na formulação de Fernando Pessoa “um cadáver adiado que procria” e ser um cógito uma “coisa” pensante sob a forma de “alma”, proporcionada ao homem por Deus.

Na prática diríamos hoje que somos um corpo químico-físico capaz, em algumas situações, como por exemplo, na depressão, de se tornar presente sob a forma de mensagens variadas a nós dirigidas e de provocar nossa imobilidade horizontal.

Tudo isso é processado por nossa instância de ser pensante, a nosso cógito des-divinizado e culturalizado.

O que fizemos, pois com a herança cartesiana? Mudamos de verbo no que diz respeito ao corpo, que antes tínhamos e que agora (pelo menos na depressão) somos sendo tal corpo um ente químico e físico, ambas as dimensões tendo que ser enfrentadas  pela tecnológica farmacêutica e pela movimentação física sistemática.

E finalmente pensar sobre tudo isso, por em discurso e discussão, já que somos, como diria Descartes, uma “coisa pensante”, mas não como um dom de Deus (qualquer que seja seu formato) e sim como fruto da cultura, ou seja da capacidade de simbolização e comunicação gerada por nós mesmos, homens, ao longo do tempo.

Em suma, a depressão serviu-me para alguma coisa: para entender que, hoje, somos – pelo menos sou – três coisas ao mesmo tempo e, assim, objeto de intervenção da química, da física e da antropologia

E como tudo é tecnologia, para resumir, comprimidos para engolir, exercício físico para suar e notebook para escrever (e terapeuta para desabafar).

COMPRIMIDOS, NOTEBOOK E SUOR

APRENDI (?) A DIZER NÃO

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Quando, voluntariamente, a criança começa dizer NÃO começa a existir como pessoa individualizada.

É preciso dizer a palavra NÃO: negar-se simplesmente a fazer algo sem pronunciar a palavra NÃO não é um ato simbólico mas apenas um comportamento (os bichos podem fazer isso também).

É claro que no adulto a palavra NÃO precisa estar imersa num Discurso do Não, numa cadeia significante baseada em argumentos que justifiquem tal NÃO.

É preciso por certo dizê-lo delicadamente; mas o que tenho feito ao longo da vida é apenas exercitar   o advérbio (que como todos deveriam saber é a palavra que modifica o verbo, o adjetivo e o próprio advérbio).

Em resumo, o que tenho feito é delicadamente não dizer NÃO.

De tanto repetir este não-ato acabei descobrindo porque fujo do NÃO, descoberta de resto completamente banal: temor da reação da vítima, que pode sentir-se pessoalmente machucada, desprezada, frustrada ou, mantendo-se firme no seu lugar, machucar-me, desprezar-me, desconsiderar-me.

É sempre necessário ser delicado mas a pergunta que fica é sé possível dizer NÃO delicadamente.

Há uma coisa cultural nossa, brasileira, que resvala a hipocrisia: fingimos, para ser delicado, dizer sim ou talvez quando NÃO seria a resposta mais lógica.

Não estou querendo me desculpar pela cultura mas é uma dificuldade a mais.

Consegui recentemente dizer NÃO não sem antes dizer SIM, depois NÃO, depois TALVEZ e, definitivamente, NÃO.

Para seres como eu a saída, na dúvida, talvez seja anteceder o NÃO com a consagrada fórmula: VOU PENSAR.

APRENDI (?) A DIZER NÃO

VEJO O CORPO

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Falava Roland Barthes que seu corpo só existia para ele quando estava com enxaqueca ou em tensão sexual.

Meu corpo tem me dado ao longo da vida sinais de existência, concretos também mas de outra natureza: ele entra em choque, no sentido literal da palavra, quando coisas graves acontecem comigo no plano afetivo.

Que foi o caso, é claro, do desaparecimento de minha companheira de 30 anos.

É como se, nestas horas, ele me dissesse: “entro em choque, logo existo”.

Entendi a mensagem e seu desdobramento inevitável: “faça alguma coisa meu dono”.

Estou dando-lhe a ração que recoloca seu fluxo químico no caminho habitual, um personnal trainner e uma bicicleta.

Com isso ele vai sossegando, virando uma tela impressionista e, pouco a pouco, reganhando a sua antiga opacidade.

Posso então (re) ver o outro lado, o exterior, ou seja eu-no-mundo.

O que ver? Como ver?

Há sempre um lugar no mundo para todos, simplesmente porque todos fazemos parte do mundo.

Que lugar é esse cabe-me descobrir, com o legado do meu passado e com as armas do pensamento.

No fim posso não descobrir mas só o processo de tentar já vale a pena: é uma forte razão para viver.

VEJO O CORPO

A ILHA

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Para Roberto Lent e Cilene Vieira

Uma casa é sempre uma subtração de um pedaço da natureza. No nosso caso isso ficou evidente porque antes dela havia apenas um pedaço da mata atlântica.

Então subtraímos um pedaço do pedaço mas deixamos bastante sobra de mata.

O suficiente para que dela vivam, hoje, fevereiro de 2016, micos, tucanos, esquilos, entre outros bichos não humanos nem domesticados.

Eu também vivo dela: meu almoço consistiu, neste dia 6 de fevereiro, longe do carnaval, em um omelete feito com os ovos das galinhas que aqui habitam e meu banho veio da água do poço devidamente aquecida pela energia solar.

Dentro, é uma casa desassombrada porque não a povoa o fantasma de quem também foi sua dona. Os fantasmas são sombras que não nascem da luz ou da claridade e por isso quando habitam uma casa diz-se que ela é mal assombrada ou seja que suas sombras vem do mal, ou seja, das trevas.

Portanto não é absolutamente o caso.

Ela foi nossa e hoje continua sendo da família:  do pai, seus 5 filhos e quatro netos, das galinhas, do sol, do caseiro Aparecido, dos macaquinhos, da água que nela brota, dos cachorros.

Enfim de uma comunidade.

Com sua (e minha) guerra, Ana, conquistamos esse pedaço da mata atlântica e instalamos nele uma ilha (como tinham-me ensinado errado no colégio): um pedaço de cultura cercado de natureza por todos os lados.

E de tanto ouvirem Mozart é capaz dos macaquinhos conseguirem transmitir este caractere adquirido para seus descendentes.

A ILHA

UMA FOTO DO AMOR

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Recebi hoje, uma fotografia de uma ano atrás, do dia 1 de fevereiro de 2015.

Uma bela foto e tentarei mostrar porque.

Mostra a foto a Ana, numa cama de hospital, com seu rosto devidamente marcado pelos signos típicos da pessoa hospitalizada, ou seja, as extensões em forma de tubos, necessárias para reproduzir uma vida que sem eles não seria mais possível.

Ela sorri, como podia, para seu neto Fernando que a beija carinhosamente.

A morte, uma vez instalada, cria, no mesmo ato, o passado, já que ambas as coisas não tem volta.

A fotografia é, assim, uma forma de morte, mesmo quando de uma coisa que continua a existir no presente; é um instante congelado de vida e, portanto, um lapso de passado e, consequentemente, de morte porque um instante depois da foto, a realidade fotografada é o passado, já que não é, ainda que imperceptivelmente, a mesma realidade do presente.

Olhar uma foto como essa que recebi hoje, faz, pela emoção, o passado se tornar presente, mas não há falta aí porque toda falta, para nós, humanos é uma imperfeição, uma incompletude que mobiliza, institivamente, a ideia ou a iniciativa de completamento ou supressão da falta.

Todo o simbólico nasce, nos animais, e nos humanos em particular, da falta primordial, ou seja como o som do choro que já não é mais som mas signo de falta, ou seja demanda de completamento, no caso, de extinção da tensão.

Como a morte não tem completamento porque não é uma imperfeição não há possibilidade da fotografia que evoca a morte funcionar com signo de falta ou seja de demanda de completamento.

Aquela foto, portanto, só pode ter um sentido, estar representando uma coisa: o amor em estado bruto, sem qualquer adereço que não remeta a ele mesmo.

Por isso é uma bela foto.

UMA FOTO DO AMOR