QUANDO A NOITE NÃO É UMA CRIANÇA MAS UM BEBÊ DESAMPARADO

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Decidi procurar no Google o significado da expressão A noite é uma criança, que já havia ouvido um milhão de vezes mas nunca tinha parado para pensar no seu porquê. Decidi esta busca porque muitas de minhas noites com certeza não estão sendo uma criança neste momento, no sentido de “ a noite está apenas começando”.

A expressão “a noite é uma criança” para a criança pequena não   é o começo de uma noitada alegre mas o escuro onde nada se vê, e o que não se vê se imagina.

Mas no que toca à minha vida hoje, não estou falando da imaginação nos sonhos mas dela desperta, no escuro, naquele momento em que você despertou mas não está ainda acordado.

E aí se trata de sentir-se uma criança real, ou seja como um desamparado.

Meu amparo morreu dez meses atrás o que me fez regredir para antes do amparo e para bem perto do desamparo.

Em de meus despertares atuais o personagem é um homem velho, com 70 anos, na pele de um bebê desemparado (ou um bebê desamparado na pele de um velho de 70 anos?).

Prefiro a primeira formulação.

O sujeito sou eu, o homem, velho e desamparado. Não se trata agora de um bebê e sim de um velho, mas se trata do desamparo. Como o bebê e seu amparo são a mesma coisa, quando o amparo some do eu amparo o bebê some de si mesmo e surge o desespero.

Em algumas de minhas noites de hoje eu sou um homem velho que sumiu de si mesmo, um não-sujeito posto frente aos inevitáveis desafios colocados para os sujeitos no claro da vida real. Então, a saída neste caso só pode ser uma, a consumação física do não-sujeito, seu desaparecimento.

Depois da madrugada, quando terminado seu expediente, abro as janelas; ai vejo coisas, não se trata mais de imaginar.

Nesta hora preciso aprender a tirar o bebê de cena e colocar no lugar um homem capaz de se auto-amparar: difícil, longa, penosa aprendizagem por certo; mas de que amparo se trata, neste caso?

Ainda tenho uma luta da vida contra a morte!

Se não é a morte é o que o auto-amparo? Auto-cuidado? Do corpo? Das contas? Da autoimagem? Da imagem externa?

Acho que não.

Enquanto é tempo e ainda se tem capacidade mental e orgânica para tanto, o auto-amparo é olhar no espelho e não ver-se (até porque, digam o que disserem, a velhice é sempre feia) mas ver a vida e você como parte dela buscando não julgá-la nem tentar recompor o retrato.

Se você ajudou a compor uma fisionomia mais humana da vida, pode candidatar-se a dormir o sono dos justos. Já fez o que devia ter feito, não foi um bicho que veio ao mundo só para cumprir uma programação predeterminada.

QUANDO A NOITE NÃO É UMA CRIANÇA MAS UM BEBÊ DESAMPARADO

2 comentários sobre “QUANDO A NOITE NÃO É UMA CRIANÇA MAS UM BEBÊ DESAMPARADO

  1. Odete Santelle disse:

    HellÔ! Vamos pra frente, que os desafios da vida não dão mole pra ninguém. Criança, jovens e velhos lucram mais “deixando a vida nos levar”. Eu particularmente devo ter adotado essa estratégia e devo ter perdido coisas legais da vida, mas acho que lucrei em fazer de conta que não estava nem aí…. Sei lá, cada um encontra seu jeito de driblar o escuro da noite. Ainda bem que o dia aparece sempre. Fuerza!

    Enviado do meu iPhone

    >

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  2. Lidia disse:

    Reinvenção
    A vida só é possível
    reinventada.

    Anda o sol pelas campinas
    e passeia a mão dourada
    pelas águas, pelas folhas…
    Ah! tudo bolhas
    que vem de fundas piscinas
    de ilusionismo… — mais nada.

    Mas a vida, a vida, a vida,
    a vida só é possível
    reinventada.

    Vem a lua, vem, retira
    as algemas dos meus braços.
    Projeto-me por espaços
    cheios da tua Figura.
    Tudo mentira! Mentira
    da lua, na noite escura.

    Não te encontro, não te alcanço…
    Só — no tempo equilibrada,
    desprendo-me do balanço
    que além do tempo me leva.
    Só — na treva,
    fico: recebida e dada.

    Porque a vida, a vida, a vida,
    a vida só é possível
    reinventada.
    Cecília Meireles

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