A BLINDAGEM

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A certa altura, por razões que francamente desconheço (até que estou me resolvendo razoavelmente…) comecei a tornar-me fisicamente inquieto, cheio de arrepios, perdido, deprimido, ansioso em excesso, enfim, a sentir a presença de um corpo que decide mostrar que existe e que as coisas não andam tão resolvidas como ingenuamente acreditei.

E aí entre em cena, de novo, a química na minha vida! Eu que pensava dela ter me livrado para sempre…

Entre altos e baixos, pondo e tirando remédios, organizando as doses, as horas de tomar, ela voltou, triunfante.

E o que ocorreu é que parei de chorar: mesmo que queira não consigo mais chorar!

Isso é bom? Francamente não sei. Talvez seja. No fundo estava meio cansado de chorar.

De qualquer forma, endureci.

Tudo é meio paradoxal diria o Conselheiro Acácio mas enfim, chorar era uma manifestação explicitamente semiótica, como diria Barthes, de que estava havendo sofrimento: lágrimas são significantes do sofrimento.

Hoje como não choro mais não sofro mais?

Não, sofro sem significante.

Sinto-me de certa forma uma burocrata do luto e descobri que para algumas pessoas que choram (eu, por exemplo) o choro é uma reação química.

Assim, lembranças dela e de tudo de bom que vivemos, podem buscar me atingir, me fazer chorar que não conseguirão.

Mas nunca mudarei de opinião sobre os remédios: sempre achei que são muletas mas o que fazer quando nossos corpos não mais nos obedecem?

A BLINDAGEM

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