UM BEIJO AMARGO

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Não sei se esse é o adjetivo adequado quem sabe descubro outro no caminho.

Beijei muito minha mulher. A minha definição digamos comportamental de beijo solidificou-se por quase trinta anos: beijos, para mim, são beijos da Ana.

Beijei por certo outras mulheres, afinal tive 2 casamentos antes mas, francamente, não guardo coisa parecida com memória comportamental de qualquer outro beijo

Obviamente beijos de amor (na boca, com interseção da língua) não são iguais; não são meros encontros carnais. Há por certo um sem número de variações em torno do tema.

É claro que há sempre uma história: casais cuja relação dura um certo tempo tiveram um primeiro beijo e vão se acostumando com o tempo acabando por definir um modus beijandi.

Por outro lado, imagino que há seres essencialmente polígamos que acabam por nunca definir o tal modus beijandi por falta de tempo de habituação.

Enfim o assunto é complexo.

Fazia muito tempo – um ano e um pouco mais – que por força da doença, dos antecedentes, dos seus sintomas, da sua descoberta e, depois, do golpe, que não beijava.

Na despedida do primeiro encontro com…depois de muitos  virtuais, ela decidiu beijar-me, no carro.

Um beijo estranho, divergente. Feito, e de iniciativa dela, com todo capricho, empenho, carinho, busca de efeitos eróticos.

E o que senti?

Difícil definir mas com certeza nada situado no mais que amplo espectro dos efeitos químico-afetivos do amor.

Não estava preparado para um beijo, qualquer que fosse a técnica empregada.

Estarei preparado, algum dia, para um outro beijo que não o teu, mulher?

Hoje, dia 26 de outubro de 2015 não antevejo esta possibilidade.

Mas você que lê esta crônica deve estar pensando um coisa muito parecida com: “a lembrança ainda é forte”, “ferida continua está aberta”, “com o tempo ele muda de ideia”.

Mas me passa pela cabeça a questão da singularidade do beijo entre as carícias amorosas.

Não seria ele uma carícia toda especial, particular, de certa forma imaculável, quando se trata de um grande e duradouro amor?

Não me sentiria invadido por uma suave mão feminina nos cabelos, mesmo pelo escorregar dos lábios de uma mulher pelo resto da minha anatomia mas, hoje pelo menos, o beijo ainda me parece alguma coisa de sagrado.

UM BEIJO AMARGO

2 comentários sobre “UM BEIJO AMARGO

  1. Lidia disse:

    Como ex burocrata ( deo gratiae que sou só “ex”), vou partir de algumas premissas. Desculpe-me, mas sofro ainda de uma dependência quase química, vinda daqueles intermináveis relatórios acadêmicos.
    1-Em seu blog, você revela bastante talento para escrever.
    2-A qualidade do beijo da Ana vem, talvez, de uma bela história de amor, construída durante quase trinta anos.
    3-Sobre a importância da paixão na literatura diz Dante: Aconteceu que uma dama maravilhosa apareceu diante de mim, toda vestida de puro branco. E, ao atravessar a rua, voltou seus olhos para onde eu estava dolorosamente envergonhado. E através de sua cortesia sem palavras, ela me cumprimentou com uma atitude tão bela, que eu parecia então ter alcançado os limites extremos da felicidade…Saí dali como se estivesse intoxicado. E Dante acrescenta de modo significativo: Depois, como eu já possuía certo grau de arte de discursar em rima, resolvi fazer um soneto. Ele transformou esse primeiro contato com sua alma, que recaiu sobre Beatriz, numa obra de arte magnífica e fê-la durar a vida inteira.
    Pois é, Fernando, transformar as paixões humanas e o sofrimento em escrita criativa, mesmo sem a genialidade de Dante, parece ser, para algumas pessoas como você, uma possibilidade de reencontro com o seu ser mais genuíno.

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