MENTIRAS VIRTUAIS – PARTE 2

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A conversa empacada

Os sites de encontros podem gera  situações, digamos, terríveis!

Uma delas é a conversa empacada.

Você entra em contato virtual com um ser humano e obtém um conjunto de informações verbais e visuais sobre ele (e ele sobre você) que formam uma determinada imagem.

Esta imagem é, sempre, precária, incompleta. Pode ser meio ou completamente falsa mas é sempre precária, provisória porque nada substitui o contato direto.

Ai chega (e chegou) o momento porque você acha que já tem informações suficientes para o test  face a face.

Bom, no caso, marcamos um encontro às… na porta da…e nos desencontramos por meia hora porque cada um achava que a porta era num lugar.

Bom mas enfim conseguimos nos encontrar.

E … aquele choque de realidade!

Bom mas já que estamos face a face, o que fazer?

Aí começa o drama: conversar, é preciso conversar!

Todos sabemos o que é uma conversa difícil: por exemplo, aquela quando se tem que explicar para os filhos que o casamento com a mãe deles acabou; ou que a empresa teve que dispensar os seus serviços.

Mas a conversa empacada não é uma conversa difícil, é uma conversa constrangedora, patética enfim uma situação totalmente insuportável!

É como quando a roda de seu automóvel está girando em falso no meio do lamaçal e você continua a acelerar mesmo sabendo que se trata de um comportamento inútil.

No caso da conversa empacada você está olhando diretamente nos olhos dela e ela nos teus, ambos buscando, dramaticamente, um assunto para conversar.

Deus, que momento de horror! Você é obrigado a arrancar da mente algum tema de conversação porque, nesta circunstância, o silêncio é literalmente uma tortura.

Bom, é verdade, existem os filhos, netos, primos, ex-maridos, família enfim, mas o tema é, digamos, de pouca potência conversacional: acaba logo.

Evidentemente não se deve falar de política, futebol, preferencias literárias ou musicais porque a possibilidade de conflito é obviamente alta.

Por exemplo, você descobre um assunto e fala: “Estou lendo um livro do Philip Roth que estou achando fantástico” e aí vem a resposta:

“Ah… “

E você percebe que ela não tem a menor ideia de quem é Philip Roth mas você não é um grosso indelicado para dizer:

“Você conhece, é claro”… porque isso vai fatalmente gerar uma de duas coisas, ambas constrangedoras: ou ela mente e responde: “Claro” ou, pior ainda, fala a verdade e diz: “Não”.

Ai você só poderá contra argumentar: “Não?… o que só piora as coisas!

Conversar é ótimo mas ter que conversar sem ter sido obrigado a isso parece ser um  horroroso invento pós moderno, um lamentável efeito colateral da internet.

É certo que D. João VI e Carlota Joaquina tiveram que conversar em diversos momentos e não havia internet naquele tempo.

No café da livraria

Está me achando parecida com a foto do site?

O que responder? Desconversei.

Por certo ela estava consciente da trama, do engodo.

A pergunta que fica é porque se mente, tanto, mesmo sabendo das inevitáveis pernas curtas?

Talvez para fisgar, é uma armadilha, um golpe, uma estratégia. Podia dar certo.

De volta, no metrô, me sentindo meio imbecil, enfrento a solidão junto àquela massa brutal e agressiva de paulistas anônimos.

Porque é tão duro ficar só?

MENTIRAS VIRTUAIS – PARTE 2

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