INGRATIDÃO

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Por estes dias uma amiga me telefona e conta que sua mãe morreu.

Estava bem nos seus 87 anos mas morreu: aneurisma. Estava jantando com seus filhos quando começou a sentir uma forte dor de cabeça e dias depois morre.

Conversamos bastante sobre este tema e sobre o tema da morte, que vem me perseguindo desde que Ana me deixou.

Algumas perguntas, que já venho me fazendo há algum tempo voltaram à tona.

Afinal o que somos nós meros seres humanos?

Claro que esta pergunta é a base de quase toda a reflexão filosófica acumulada desde que começamos a pensar como homens e ela é aqui (quem sou eu…) um mero pretexto para uma modesta reflexão.

Acho que somos pelo menos

  1. Um corpo
  2. Uma subjetividade
  3. Uma sociedade, uma cultura e uma história que se reproduz e transforma às nossas custas

Estas coisas todas nos envolvem e nos constituem, desaguam em nós mas cada uma delas é uma entidade semi-autônoma: depende de nós mas tem sua larga faixa de autonomia.

Deixo de lado por comodidade o item “c” (fica como pano de fundo) para me concentrar em “a” e “b” e na relação entre os dois.

O corpo da mãe de minha amiga e o corpo da minha mulher, ambos, morreram, digamos, por conta própria. Decidiram morrer.

Os católicos e outros religiosos chamam isso de desígnios insondáveis da providência divina, o que é claramente uma explicação infantil. Deus (ou o que quer que seja) quis que ele (ela) fosse, chegou a sua hora e outras bobagens do mesmo teor.

Isso não é nada salvo ausência de reflexão.

Acho que o fato de nossos corpos decidirem morrer por conta própria um fato inquietante, perturbador.

Claro que os corpos envelhecem, claro que acontecem acidentes, claro que algumas pessoas se matam por vontade própria, claro que algumas pessoas contribuem largamente para que seus corpos morram adotando vários comportamentos que as predispõe a isso e tudo isso é uma banalidade.

Mas muitas pessoas morrem por nenhuma razão outra que por decisão autônoma de seus corpos.

Diríamos que a vida dos corpos (não envelhecidos e não predisponentes) é o equivalente a uma máquina funcionado e que deixa de funcionar, digamos, porque sim.

Ana por exemplo não tinha a menor intenção de morrer, não contribuiu em nada para isso (era uma mulher que se cuidava até excessivamente) e seu corpo tomou a decisão de não mais existir.

Explicações psicanalíticas, médicas, espirituais, genéticas, etc. tudo isso não tem qualquer tipo de comprovação segura.

Enfim ninguém saberá dizer, nem aproximadamente, porque seu corpo decidiu morrer.

A verdade é que não foi ela, não foi sua subjetividade.

As pessoas morrem, as vezes, porque sim, porque seus corpos assim decidiram.

É claro que medicina e artes paralelas detém um controle relativo sobre a morte dos corpos. É claro que morria-se antes da ciência de hoje, de coisas que não se morre mais.

E há os que acreditam que o controle relativo da C&T sobre a vida e morte dos corpos tende a aumentar de sorte que sobrará cada vez menos autonomia de decisão aos corpos.

O fato é que Ana e a mãe de minha amiga não tinham a mais vaga intenção de morrer mas seus corpos decidiram que havia chegado a hora.

Porque eles fazem isso com a gente?

Ingratos!

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