DOMINGO CHUVOSO EM COTIA

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Faz tempo triste é domingo (hoje é dia 6 de setembro de 2015 e são 7 horas e cinquenta minutos em Cotia, São Paulo, Brasil).

Para as pessoas normais é véspera de feriado e te vejo bem de frente na versão do Rodrigo Bueno, batucando aqui nesta máquina em cima desta mesa tão significativa, tão particular, de onde saiu meu doutorado improvável.

A morte me rondava naquele momento, cheguei quase a dar de cara com ela mas fugi no último minuto.

Hoje Ela não me ronda mais, não é mais um anti-vida como foi naquele instante.

Naquele instante estava atacado de pânico hoje não, não tenho mais medo da vida.

Sinto-me apenas um pouco cansado de existir. A boa morte deve ser aquela em que nos sentimos bastante cansados, com muita vontade de dormir.

Morrer poderia ser a sensação de paz no final do reencontro consigo.

É claro que cada um pode ter a imagem que quiser deste momento mas para mim este auto-encontro é necessário para chegar bem lá, no fim da estrada.

Porque acho que andei fugindo de mim a vida inteira.

Você Ana era uma pessoa muito interessante, muito particular, muito cheia de vida, então estar o tempo todo te observando, te seguindo, era uma agradável descaminho.

Perder-me nas tuas sendas cotidianas era qualquer coisa impossível de resistir.

E assim ia esquecendo de mim.

Agora não há mais como fazer isso, não há mais como fugir: a auto-reconciliação torna-se obrigatória.

Retomar um caminho de volta, começar de novo uma percurso que nunca houve e encontra-se no final

 

“…E vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,

A cabeça, em maresia,

Ergue a mão e encontra a hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.”

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

Dormi muitos anos e você embalou meu sono.

Acordei abruptamente inteiramente só e assustado.

Há muita bruma ainda no caminho, não vejo claramente as coisas mas vejo o caminho, sei aonde vai dar e só devo ter-me a mim mesmo para dar a mão: é duro, é o que todos temem, é o de que todos fogem, inutilmente.

DOMINGO CHUVOSO EM COTIA

3 comentários sobre “DOMINGO CHUVOSO EM COTIA

  1. Lidia disse:

    Mas cada um cumpre o Destino
    Ela dormindo encantada,
    Ele buscando-a sem tino
    Pelo processo divino
    Que faz existir a estrada.
    Fernando, eu penso que essa estrada leva ao encontro consigo mesmo. Assim, concordo com você. Por, isso é bem possível. que, apesar de todo sofrimento, você saia fortalecido.Um amor tao intenso nao pode ter sido em vao.

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    1. O fato é que a relação nos faz esquecer (e isso é sedutor!!) que somos uma pessoa e enquanto tal um manancial de angústia. Começo a me identificar – ainda que tardiamente – com Camus, Sartre e tantos outros. Encontrar-se é uma missão mas sempre muito dolorosa
      grande abraço
      Fernando

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