MOMENTO SUBLIME

momento_sublime

Mas há! Eu sinto-me altas tradições

De antes de tempo, espaço e vida e ser…

Já viram Deus as minhas sensações…

 

Pessoa

 

É dia lindo, claro, claríssimo e me deu vontade de acreditar em Deus.

Chorei sem motivo outro senão o de estar alguns segundos diante de algo Maior: entre a minha pessoa e a pequena borboleta branca que dança diante desta palmeira majestosa nada há senão a beleza desta cantata de Bach.

Quem disse que o céu não existe se este azul esbofeteia de tão bonito!

Foi um instante, alguns segundo apenas, depois comecei a pensar em escrever isso que estou escrevendo agora, que evidentemente não é o instante mas tão somente o registro banal dele já que a sua melhor descrição já é matá-lo.

Nestes segundos fraquejei um pouco apesar de continuar firmemente não acreditando em criador nenhum. Foi uma sensação nova:  não penso ter experimentado isso alguma vez, nem na infância.

Não foi um momento feliz (o máximo que consigo nestes tempos Depois do Golpe é esquecer de chorar) mas foi belo, com certeza.

Quem sabe não tenha sido este o primeiro degrau, a porta de saída entreaberta para a paz de espírito.

É muito pouco, é fugaz, mas foi bom, talvez um presságio.

MOMENTO SUBLIME

5 comentários sobre “MOMENTO SUBLIME

  1. Lidia disse:

    Pelos seus escritos, inclusive neste, acredito que você, apesar de comemorar a transcendência de um dia claro e bonito, resiste em aceitar o deus das teologias.
    Lembrei-me de um conhecido e sublime poema, de Fernando Pessoa, que, na pele de Alberto Caeiro, canta o deus-natureza, o deus menino, que é humano e natural (aquele que as sensações do poeta já viram), ao mesmo tempo em que rejeita e ridiculariza a divindade dos dogmas religiosos. Coincidência? É claro que são bem-vindas interpretações diferentes.

    Num meio-dia de fim de primavera
    Tive um sonho como uma fotografia.
    Vi Jesus Cristo descer à terra.
    Veio pela encosta de um monte
    Tornado outra vez menino,
    A correr e a rolar-se pela erva
    E a arrancar flores para as deitar fora
    E a rir de modo a ouvir-se de longe.
    Tinha fugido do céu.
    Era nosso demais para fingir
    De segunda pessoa da Trindade.
    No céu era tudo falso, tudo em desacordo
    Com flores e árvores e pedras.
    No céu tinha que estar sempre sério
    E de vez em quando de se tornar outra vez homem
    E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
    Com uma coroa toda à roda de espinhos
    E os pés espetados por um prego com cabeça,
    E até com um trapo à roda da cintura
    Como os pretos nas ilustrações.
    Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
    Como as outras crianças.
    O seu pai era duas pessoas
    Um velho chamado José, que era carpinteiro,
    E que não era pai dele;
    E o outro pai era uma pomba estúpida,
    A única pomba feia do mundo
    Porque não era do mundo nem era pomba.
    E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

    Não era mulher: era uma mala
    Em que ele tinha vindo do céu.
    E queriam que ele, que só nascera da mãe,
    E nunca tivera pai para amar com respeito,
    Pregasse a bondade e a justiça!

    Um dia que Deus estava a dormir
    E o Espírito Santo andava a voar,
    Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
    Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
    Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
    Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
    E deixou-o pregado na cruz que há no céu
    E serve de modelo às outras.
    Depois fugiu para o sol
    E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

    Hoje vive na minha aldeia comigo.
    É uma criança bonita de riso e natural.
    Limpa o nariz ao braço direito,
    Chapinha nas poças de água,
    Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
    Atira pedras aos burros,
    Rouba a fruta dos pomares
    E foge a chorar e a gritar dos cães.
    E, porque sabe que elas não gostam
    E que toda a gente acha graça,
    Corre atrás das raparigas pelas estradas
    Que vão em ranchos pelas estradas
    com as bilhas às cabeças
    E levanta-lhes as saias.

    A mim ensinou-me tudo.
    Ensinou-me a olhar para as cousas.
    Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
    Mostra-me como as pedras são engraçadas
    Quando a gente as tem na mão
    E olha devagar para elas.

    Diz-me muito mal de Deus.
    Diz que ele é um velho estúpido e doente,
    Sempre a escarrar no chão
    E a dizer indecências.
    A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
    E o Espírito Santo coça-se com o bico
    E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
    Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
    Diz-me que Deus não percebe nada
    Das coisas que criou —
    “Se é que ele as criou, do que duvido” —
    “Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
    Mas os seres não cantam nada.
    Se cantassem seriam cantores.
    Os seres existem e mais nada,
    E por isso se chamam seres.”
    E depois, cansado de dizer mal de Deus,
    O Menino Jesus adormece nos meus braços
    e eu levo-o ao colo para casa.
    …………………………………………………………………..
    Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
    Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
    Ele é o humano que é natural,
    Ele é o divino que sorri e que brinca.
    E por isso é que eu sei com toda a certeza
    Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

    E a criança tão humana que é divina
    É esta minha quotidiana vida de poeta,
    E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
    E que o meu mínimo olhar
    Me enche de sensação,
    E o mais pequeno som, seja do que for,
    Parece falar comigo.

    A Criança Nova que habita onde vivo
    Dá-me uma mão a mim
    E a outra a tudo que existe
    E assim vamos os três pelo caminho que houver,
    Saltando e cantando e rindo
    E gozando o nosso segredo comum
    Que é o de saber por toda a parte
    Que não há mistério no mundo
    E que tudo vale a pena.

    A Criança Eterna acompanha-me sempre.
    A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
    O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
    São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

    Damo-nos tão bem um com o outro
    Na companhia de tudo
    Que nunca pensamos um no outro,
    Mas vivemos juntos e dois
    Com um acordo íntimo
    Como a mão direita e a esquerda.

    Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
    No degrau da porta de casa,
    Graves como convém a um deus e a um poeta,
    E como se cada pedra
    Fosse todo um universo
    E fosse por isso um grande perigo para ela
    Deixá-la cair no chão.

    Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
    E ele sorri, porque tudo é incrível.
    Ri dos reis e dos que não são reis,
    E tem pena de ouvir falar das guerras,
    E dos comércios, e dos navios
    Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
    Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
    Que uma flor tem ao florescer
    E que anda com a luz do sol
    A variar os montes e os vales,
    E a fazer doer nos olhos os muros caiados.

    Depois ele adormece e eu deito-o.
    Levo-o ao colo para dentro de casa
    E deito-o, despindo-o lentamente
    E como seguindo um ritual muito limpo
    E todo materno até ele estar nu.

    Ele dorme dentro da minha alma
    E às vezes acorda de noite
    E brinca com os meus sonhos.
    Vira uns de pernas para o ar,
    Põe uns em cima dos outros
    E bate as palmas sozinho
    Sorrindo para o meu sono.
    …………………………………………………………….
    Quando eu morrer, filhinho,
    Seja eu a criança, o mais pequeno.
    Pega-me tu ao colo
    E leva-me para dentro da tua casa.
    Despe o meu ser cansado e humano
    E deita-me na tua cama.
    E conta-me histórias, caso eu acorde,
    Para eu tornar a adormecer.
    E dá-me sonhos teus para eu brincar
    Até que nasça qualquer dia
    Que tu sabes qual é.
    ……………………………………………………………
    Esta é a história do meu Menino Jesus.
    Por que razão que se perceba
    Não há de ser ela mais verdadeira
    Que tudo quanto os filósofos pensam
    E tudo quanto as religiões ensinam?
    (O guardador de rebanhos, V)

    * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

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  2. Lidia disse:

    Lidia disse:
    É mesmo lindo o que Pessoa escreve. E, no poema que eu trouxe, o poeta parece tratar do mesmo assunto desta sua crônica: a aceitação da divindade da Mãe-Natureza e resistência ao deus das teologias e dos dogmas religiosos.
    Mas, como eu já falei, são bem-vindas as interpretações diferentes.

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  3. Lidia disse:

    E, já que você gosta do Guardador de Rebanhos, segue mais um trecho de um poema sobre a divindade da natureza.

    Mas se Deus é as flores e as árvores
    E os montes e sol e o luar,
    Então acredito nele,
    Então acredito nele a toda a hora,
    E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
    E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

    Mas se Deus é as árvores e as flores
    E os montes e o luar e o sol,
    Para que lhe chamo eu Deus?
    Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
    Porque, se ele se fez, para eu o ver,
    Sol e luar e flores e árvores e montes,
    Se ele me aparece como sendo árvores e montes
    E luar e sol e flores,
    É que ele quer que eu o conheça
    Como árvores e montes e flores e luar e sol.

    E por isso eu obedeço-lhe,
    (Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
    Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
    Como quem abre os olhos e vê,
    E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
    E amo-o sem pensar nele,
    E penso-o vendo e ouvindo,
    E ando com ele a toda a hora.

    Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema V”

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