FUI VIDA

fui_vidaÉ claro que a vida é muito mais que a minha pessoa, os outros existem, a natureza e tudo mais, porém que lição devo tirar desta constatação óbvia além do fato de que a vida não cessa com a morte própria ou de um pedaço da gente, como a companheira?

Somos todos produtos diretos, espontâneos ou anônimos da própria vida, como esta palmeira à minha frente ou este banco tosco deixado de presente pelos empregados que fizeram esta casa.

E, todos sabemos, a vida mata seus filhos para poder revivê-los e, assim, perpetuar-se.

Mas é meio humilhante pensar assim, não é mesmo (ponto de interrogação), ter esta postura franciscana, esta aceitação passiva, ver-se não diferente desta minúscula formiga que acabo de esmagar.

Então tem a Obra! É uma saída já que a formiga não deixará para a posteridade nada parecido com uma obra, ou seja uma coisa acrescentada ao patrimônio natural/cultural (quem base uma mutação dela seria uma obra).

É claro também que o problema não acaba aí. Por exemplo, quem inventou a cor amarela? Com certeza foi alguém cujo nome jamais saberemos, o que faz com que o amarelo e seu descobridor acabem se tornando a mesma coisa que a palmeira aqui de frente, o que no fundo não é verdade e uma injustiça para com o autor.

Portanto a Obra tem que ter autor ou autores devidamente nomeados.

Mas e a Obra de baixo ou baixíssimo impacto? Ou pior ainda, equivocada, desmentida pelos fatos, como um livro que tivesse por título: Porque o homem jamais chegará à Lua? Ou as toneladas de mensagens completamente irrelevantes diariamente postadas nos “facebooks”, ou mesmo relevantes mas não percebidas com tal? Ou um livro que os próprios “sebos” resolvem jogar no lixo para permitir que vague um espaço na estante?

Portanto a Obra tem que ter autor nomeado e alguma relevância.

Mas que decide a relevância ou não ou mesmo seu grau?

Há os gênios absolutamente relevantes como Sócrates,  Chaplin, Freud, Bach e até Hitler e Stalin (gênios do mal, para muitos); há autores significativos para um determinado campo, como Durkheim por exemplo; há pensadores ou músicos discretos (algum filho de Bach não muito conhecido); há pessoas que fizeram algo que consta em destaque de alguma biblioteca ou museu; há pessoas que fizeram algo que apenas consta de alguma biblioteca o museu; há pessoas que fizeram algo mas que não consta de nenhuma biblioteca ou museu; há pessoas que não fizeram nada além de viver mas que são lembradas (mesmo que apenas por seus íntimos)  por terem feito ou vivido alguma coisa  boa, ou algum malfeito ou mesmo terem sido vítimas de injustiça ou grande sofrimento (há que ter sofrido muito para ter algum destaque) ou no mínimo terem sido pais de pessoas significativas ( o pai de Freud, por exemplo) e finalmente há pessoas completamente irrelevantes, a maioria da humanidade.

Com certeza há muitas pessoas completamente irrelevantes que foram felizes em suas vidas o que, pensando bem, é uma bênção para elas porque literalmente todos os que buscaram fazer alguma coisa sofreram, já que não há destaque de alguém, que não tenha sido objeto de ciúme ou inveja da parte dos não destacados. E mesmo a busca do destaque produz sofrimento próprio por sempre gerar alguma dúvida no destacado se está ou não fazendo a coisa certa.

Por isso, penso, para as pessoas comuns, já que gênios são muito poucos, a busca da felicidade ou pelo menos da paz de espírito ou do não-sofrimento, se você não tiver sido abençoado pela completa inocência, passa pelo sentimento: fiz alguma coisa, inventei algo, acrescentei algo ao patrimônio da natureza/cultura, fiz a minha parte, posso morrer feliz, minha vida valeu a pena, não foi apenas o que ela me fez.

FUI VIDA

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