ESCRIBIENDOSE

escribiendose

(Em espanhol fica mais bonitinho com o “se” junto)

Isto que estou tentando fazer aqui é uma tentativa de autoterapeutisar-se pela escrita.

Pode dar certo: fui “autorizado” por meu terapeuta a escrever-me e usar deste expediente como processo terapêutico.

Fica claro (já falei disso) que escrever-se é diferente de falar-se, que acontece no divã terapêutico, que é muito mais livre e anárquico.

Aqui é um modo um tanto complexo de comunicar mas que pode fazer sentido.

A começar pelo receptor que, basicamente, sou eu mesmo mas como se este eu fosse um outro, um leitor como eu que estivesse lendo algo escrito por outro e identificando-me com o escrito pelo conteúdo mas também pela estética do tecido.

No divã clássico, contando para o terapeuta, me dei conta de que fiz isso bem mocinho, devia ter 12 ou 13 anos, com o claro objetivo (adolescente) de entender-se, saber-se o que se é, enfim essas coisas da identidade, tão fundamental nesta fase da vida.

Essa exigência voltou mais de 50 anos depois porque tive e tenho, agora só, de olhar-me o tempo todo o que me obriga saber quem é, no fim das contas, este sujeito que me acompanha vinte quarto horas todos os dias.

O meu perfil oficial, digamos, acadêmico e profissional, acho, é uma construção mais ou menos bem resolvida: um desafio muito grande, bem razoavelmente equacionado ao longo da vida graças em boa medida a esta sólida mulher com a qual vivi estes últimos trinta anos.

Mas sinto que ainda falta entender boa parte da minha face interna. Hoje, sinto-me um pouco como na Chanson d’Automne de Verlaine

Et je m’en vais

Au vent mauvais

Qui m’emporte

Decà, delà,

Pareil à la feuille morte 

Sentir-se desamparo como folha morta ao sabor do vento mau significa ter que virar árvore?

Neste caso, onde ficar as raízes? No passado, lá nas origens familiares de tudo? Ressignificar a infância já que, psiquicamente não pode haver raiz fora dela?

Ou entender que não se trata de virar árvore mas de reconhecer-se como tal e não como folha morta de um “tronco familiar”?

Porque não, por exemplo, comprar uma árvore já mais ou menos feita, que produza algum fruto não ácido e batizá-la com meu nome. Ou, mais praticamente, encontrar a imagem de uma árvore no Google colocar como papel de parede no notebook para que eu a veja todos os dias, heim?

Foi o que fiz.

ESCRIBIENDOSE

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