AS ANTECÂMARAS DO INFERNO OU O SHOW NÃO DEVE CONTINUAR

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Para continuar existindo tenho que lidar com as lembranças daquele horror que foram os três meses e pouco que passamos, a maior parte do tempo, nas salas, quartos e corredores de hospitais.

Sinto que preciso enfrentar, olhar o horror de frente, pois tentar apagar da memória não funciona porque simplesmente não se consegue.

(Neste momento preciso meus olhos estão cheios de lágrimas apenas de teclar estas letras).

Teria sido tão bom ter tido aquela conversa difícil sobre a morte de que fala Gawande[1]… Mas ela não aconteceu. Eles não quiseram, não tiveram coragem, sei lá…

Por causa disso, nestes três meses foram poucos os dias que não estivemos em algum hospital em busca de fiapos de uma vida antecipadamente perdida, agarrando-nos  a uma madeira podre chamada quimioterapia, para não afundar.

A sentença já tinha sido dada pelo câncer, sendo assim já estávamos no corredor da morte mas imaginando que se tratava de um atalho para a vida.

(A impressão que tenho, hoje, passado algum tempo, é que você, Ana, nunca acreditou neste atalho… o que não foi o meu caso: fui seduzido até o fim, mesmo quando você já estava a um passo da morte, pela conversa ficcional da medicina, esta crença irracional na tecnologia).

Hoje estou seguro que fomos vítimas de uma ciência aferrada a vidas a serem salvas, a qualquer custo e covardemente retraída diante de um inimigo mais forte.

É certo que foram muito delicados conosco, gentis, solícitos, atenciosos, carinhosos mesmo: fomos muito bem tratados nos corredores da morte fantasiados de atalhos para a vida.

Sem queixas.

Mas o show médico não deve continuar. A morte sempre será mais forte.

Tenho uma enorme gratidão por esse autor, Atul Gawande, médico de Harvard; já não me sinto, como antes, nas mãos da medicina, dos entendidos na minha máquina corporal. Há seres sensíveis do outro lado da barricada. Interlocutores.

[1] Mortais: nós a medicina e o que importa no final. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015

AS ANTECÂMARAS DO INFERNO OU O SHOW NÃO DEVE CONTINUAR

Um comentário sobre “AS ANTECÂMARAS DO INFERNO OU O SHOW NÃO DEVE CONTINUAR

  1. Ignes Bittencourt disse:

    Memória

    Amar o perdido
    deixa confundido
    este coração.

    Nada pode o olvido
    contra o sem sentido
    apelo do Não.

    As coisas tangíveis
    tornam-se insensíveis
    à palma da mão

    Mas as coisas findas
    muito mais que lindas,
    essas ficarão.
    Carlos Drummond de Andrade , “Poemas”. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959.

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