A LIBERDADE DE NÃO VIAJAR

 inezcastro

Não quero mais sentir pena de mim, é meio ridículo; mas não quero viajar! Prefiro exercer a liberdade, é melhor do que ficar chorando no chuveiro.

Camões meteu no meio dos Lusíadas a história de Inez de Castro que de tão bonita a gente fica louco para sentir-se romântico.

Nos versos finais ele fala

As filhas do Mondego a morte escura

Longo tempo chorando memoraram

E, por memória eterna, em fonte pura

As lágrimas choradas transforam

O nome lhe puseram, que inda dura

“Dos amores de Inês” que ali passaram

Vede que fresca fonte rega as flores,

Que lágrimas são a água; e o nome, Amores!

Muito mais prosaicamente em vez juntar águas às do chuveiro melhor pensar em outra coisa, na liberdade por exemplo.

A liberdade não precisa necessariamente ser o contrário da prisão e o casamento não precisa ter sido uma prisão para a morte da companheira (no caso) gerar um estranho e agradável sentimento de liberdade.

Já que o golpe é inevitável, relaxemos e gozemos a liberdade.

No começo não se sabe muito bem o que fazer dela, como gozá-la mas vai se aprendendo.

Há contudo uma forte pressão para usufruí-la de determinadas formas-padrão e uma delas, talvez a mais frequente, é viajar: é quase uma obrigação, mormente na condição dupla de viúvo e aposentado.

Sair do seu espaço habitual – porque ele é uma extensão da nossa corporeidade – pode no entanto ser uma outra forma de não se ver, de escapar do encontro fatal.

A liberdade, enquanto fato psíquico, de fato, incomoda, por isso estamos frequentemente tentando domá-la, circunscreve-la, codifica-la.

Não preciso viajar: posso até querer mas não preciso!

A LIBERDADE DE NÃO VIAJAR

4 comentários sobre “A LIBERDADE DE NÃO VIAJAR

  1. Odete Santelle disse:

    Oba, Ta melhorando! Fazer o que Bem entender com seu tempo é muito bom, mas sair das quatro paredes e ver a Vida lá fora, mesmo nos parques, praças, shoppings, praias e mares é muito bom. Não precisa fotografar… Para não fazer parte dos otários que clicam a Torre Eiffel, rsrs. Abraço

    Enviado do meu iPhone

    >

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  2. Ignês Bittencourt disse:

    Bom dia Fernando, conheci seu blog através do Carlos Leonardi que compartilhou um dos teus textos, momento difícil esse de perda, confronto com a morte e referências caídas por terra, demanda paciência, muito esforço, até que se consiga olhar para frente e enxergar alguma paisagem.

    Seu sobrenome me é familiar, tenho a impressão de que nossos pais foram bons amigos, talvez companheiros da Revista Clima, não estou bem certa. Por supor que sim, resolvi escrever para desejar força nessa travessia que a vida colocou no teu caminho.

    Ignês Bittencourt

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    1. É claro que foram muito amigos eu conheci seu pai e eles foram também companheiros de perseguição durante a ditadura e sim participaram da Revista Clima do grupo do Mario de Andrade. Eu também sou muito amigo do Carlos que foi companheiro de estadia em Paris onde estivemos nos anos 70. Obrigado pelas referencias e continue seguindo o blog e também meu site que é o http://www.ipdsc.com.br
      um grande abraço
      Fernando

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  3. ignes Bittencourt disse:

    Que legal saber que conheceu meu pai! Será que frequentava a livraria? Tenho lembranças de infância dos teus, de ter ido a uma casa na Al. Franca ( ? ). Vou conhecer o site. Abraço, Ines

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