MORTE: OLHANDO DE FRENTE

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Ficar só é situação que comporta gradações. Num extremo pode-se estar completamente só, absolutamente só.

Vamos supor (tenho medo disso, muito…) que de fato tudo dela tenha morrido.  Que ela tenha desaparecido como carne e espírito, completamente.

Ou seja, nunca mais! Ela deixou de existir integralmente, para sempre! Não há mais qualquer possibilidade de contato, de comunicação!

Talvez fosse até mais fácil.

Mas acontece que ela está morta e ao mesmo tempo presente em todos os meus espaços, a qualquer momento.

Porque quando se sente falta todo tempo, quando a todo momento me pego melancólico porque ela não está é porque ela não foi.

O que dói como uma ferida aberta é que ela não responde quando a chamo; o que é o mesmo que acreditar que ela poderia ou poderá, algum dia, responder.

Como não acreditar nessa possibilidade?

A morte total, completa, o desaparecimento definitivo é por demais devastador para não se acreditar que certas coisas que acontecem sejam indícios (as vezes fortes) de que eles não se foram, por inteiro.

Por outro lado é tão bom e tão fácil acreditar, não precisar provar…

Assim sendo, fico esperando, com persistência e sem ansiedade, um sinal teu.

Nesta direção, o primeiro a ser feito é não acreditar, mesmo, na morte definitiva, total, completa, intransigente, irreversível, de tudo.

Porque, pensando bem, acreditar nesta irreversibilidade não é também uma crença e portanto tão frágil quanto a crença inversa?

MORTE: OLHANDO DE FRENTE

9 comentários sobre “MORTE: OLHANDO DE FRENTE

  1. Odete disse:

    Difícil…. Penso que por causa dessa dificuldade em aceitar a injustiça da finitude, surgiram as propostas das religiões que advogam novo céu e nova terra onde não haverá mais morte. Eu era mais feliz quando acreditava nisso. Mas a Ana viverá para sempre na sua Vida, ela deixou uma herança linda de amor e respeito pelas pessoas, de dedicação integral às coisas que ela se empenhou por fazer. Eu agradeço sempre a oportunidade de ter convivido um pouco com ela. Abraço,

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    1. Espero muito o dia que possa ir ao Centro e receber uma mensagem dela psicografada mas confesso que tenho um pouco de medo pois conhecendo-a como conheço reconheceria imediatamente se é ou não ela que está falando do outro lado. Enfim…

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  2. Angela Fernandes disse:

    Sonhei com ela há uma semana, mais ou menos. Ela estava meio afoita e me dizia: “Vá, faça alguma coisa. Como você é parada!” Como estou numa paradeira de faz gosto, aceitei a observação: “É, estou mesmo, credo.”
    No dia seguinte, como fui à missa, aproveitei e coloquei o nome dela nas intenções, mas pensei: “Uma missa… hum… ela está tão ativa, a mil, mas missa é sempre bom.” Sentia que ela sorria – ou ria para mim/ou de mim. Achei interessante, porque esse é o comportamento usual dela. Até ousei uma pergunta: “Não entendi muito bem o que você me disse ontem à noite, no sonho.” Ela riu, com uma expressão de “Ai meu Deus, você não entendeu?”
    Penso desde então seriamente sobre o que é felicidade. O seu bom humor, a vida sempre com novidades, idéias surgindo ininterruptamente, a descrição hiperbólica de Alter do Chão, das águas, das pessoas que vivem lá. Talvez porque tenha feito muito, tenha vivido hiperbolicamente, amando os filhos, os netos, mas acima de tudo e de todos, o marido, continua vivendo assim. Ela é feliz.

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    1. Eu ainda hei de acreditar em vida depois da morte. Tenho feito um grande esforço nessa direção apesar das resistências e das “evidências” de que vida humana é consciencia e consciencia um produto do funcionamento do cérebro, ou seja dessa coisa meio cinzenta parecida com uma noz que vira pó depois que nossos corpos morrem. Muitos me dizem, ela está no seu coração ou coisas semelhantes. Acho isso gentileza apenas. Quero acreditar mesmo em vida após a morte. Quero falar com ela. Pronto, é isso!!

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      1. Angela Fernandes disse:

        Consciência é Deus. Ela está ao seu lado, ainda. No momento, conversar pode ser difícil para você e também para ela. Como ela falar e como vc entender e vice-versa? Não entendo muito desse tipo de comunicação. Não pretendo consolar você, mesmo porque você tem todo o direito de se lamentar e se desesperar e se deprimir. Não entendo a morte. Mas seguramente há um outro patamar e lá deve ser bom. Você agora deve aprender a se organizar sem ela, caminhar mais um tanto de vida sem enxergá-la, sem conversar com ela. Amor e companheirismo não acabam assim, de uma hora pra outra. No que eu acredito? Que ela em alguns momentos está ao seu lado e em outros, deve ter outros compromissos, deve também estar se organizando nesse novo estágio de vida. O Jung conta que numa época começou a sonhar com o pai, falecido há muito tempo, pedindo que ele falasse sobre o casamento. Ele achava que o sonho significasse que ele deveria ampliar seu método para atender casais. Mas o pai vinha nos sonhos cada vez mais ansioso, com o mesmo pedido. Algumas semanas depois a mãe dele morreu. Ele então entendeu que o pai estava pedindo uma orientação para se preparar para o reencontro com a esposa. Aproveite a Espanha. A Ana sempre gostou muito de lá.

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  3. Lidia R A Prado disse:

    Fernando, como você sabe, a ideia da própria finitude, desde sempre, vem inquietando filósofos, teólogos, artistas ou homens comuns. Saber que um dia vamos desaparecer é algo terrível e requer desapego em sua modalidade mais extrema: desapego do próprio corpo.
    O cristianismo prega o vida eterna, o budismo fala em integração com o cosmos mas com perda da individualidade. Dentre os filósofos, na minha opinião foi Nietzsche quem melhor enfrentou esse tormentoso tema: rebelou-se contra a promessa cristã da felicidade somente após a morte e preferiu sugerir que aproveitemos o máximo tudo o que a vida pode oferecer.
    Longe de ser um hedonismo, essa teoria prega a auto superação e a aceitação dos bons e também dos maus momentos da existência. Há um belo poema de Lou Salomé, (acho que já lhe enviei) que resume esta visão: já que a morte é inevitável, vivamos intensa e apaixonadamente a vida. Espero, Fernando, que os leitores do seu blog o apreciem, lembrando apenas que Lou foi a amada impossível desse filósofo.

    HINO À VIDA
    Lou Salomé

    Tão certo quanto o amigo ama o amigo,
    Também te amo, vida-enigma
    Mesmo que em ti tenha exultado ou chorado,
    mesmo que me tenhas dado prazer ou dor.
    Eu te amo junto com teus pesares,
    E mesmo que me devas destruir,
    Desprender-me-ei de teus braços
    Como o amigo se desprende do peito amigo.
    Com toda força te abraço!
    Deixa tuas chamas me inflamarem,
    Deixa-me ainda no ardor da luta
    Sondar mais fundo teu enigma.
    Ser! Pensar milênios!
    Fecha-me em teus braços:
    Se já não tens felicidade a me dar
    Muito bem: dai-me teu tormento.

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    1. Pensando bem nunca consegui me ver devidamente nos espelhos todos (de vidro e de qualquer outro significante) que me foram postos na frente algum dia. Penso que esta é a grande tarefa que devo me impor neste tempo curto que me resta.Conversar devidamente com meu inconsciente, dar uma trégua no meu superego tão rígido, enfim conseguir conversar em paz comigo mesmo. Penso que vivi em muita paz com Ana e vou tentar retomar este sentimento. Não será tarefa fácil.Mas uma coisa consegui neste tempo depois da morte da mulher que amei demasiado: a humanidade de meus amigos, meus filhos, meus enteados os maridos e as mulheres deles, meus netos, meus empregados e todos os que compartilharam meu sofrimento. A todos meu amor incondicional

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