DEPOIS DO GOLPE

afthethecoupAntes de mais nada, a viuvez tem grande chance de ser um golpe ou, mais precisamente, uma merda, quando se amou a mulher ou o companheiro que se foi.

É preciso, pois, sobreviver e buscar, no mínimo, a serenidade.

Por que a solidão é tão incômoda? Afinal, somos só uma res extensa (e não duas).

Com certeza, cada um de nós passa boa parte da vida fugindo de si mesmo, recusando-se a ver como objeto. Daí o casamento.

De fato, a relação amorosa mais ou menos permanente (ao menos aquela a dois) é uma terceridade, como diria Peirce. Terceridade quer dizer nem eu nem a companheira mas um tercius que é a própria relação (os filhos não deveriam ser um terceiro mas outra primeiridade).

O casamento é (entre outras coisas, por certo) um modo prático de não se ver. Quando você começa a querer muito se ver no casamento já não está mais havendo casamento.

Num bom casamento, portanto, é preciso se ver, como na cerveja, com moderação.

Mas quando morre o companheiro, que você amava, tromba-se de cara consigo o que é sempre um golpe pelo caráter súbito do encontro.

Fica-se, todos sabem, sem chão e como não é possível viver flutuando no espaço você enlouquece, ou se mata ou segue em frente.

Penso que é necessário enlouquecer um pouco, o tal do luto mas matar-se é também uma alternativa legítima ainda que genericamente condenada.

Depois da loucura deveria vir a serenidade: é útil, caso a opção seja pela vida, ser uma espécie de Monge Urbano, sem hábito, sem meditação, sem convento.

DEPOIS DO GOLPE

7 comentários sobre “DEPOIS DO GOLPE

  1. Odete Santelle disse:

    Que interessante Fernando, é isso mesmo, encontrar-se consigo mesmo é um exercício que exige coragem! Dividir nosso espaço, dores e alegrias com quem se tem afinidade é muito mais confortável. A Ana se sentiria orgulhosa de ver que você está reagindo e encontrando saídas para driblar esse momento. Meu voto é pela serenidade, a outra alternativa é fuga, e você é guerreiro… Abraço!

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  2. Raquel Zaicaner disse:

    o vazio é tão grande que parece não caber. Mas as opções vão aparecendo no caminhar. De que jeito que se vai, só indo. As vezes segue em frente, aparecem curvas, voltas, novas idas. Mas a vida bem compartilhada não tem deposição. Vai nos alimentando enquanto a gente acha caminhos.

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  3. Marcelus disse:

    Morte! Como tu és imbecil! Assumes uma importância que jamais será tua! Ages, sorrateiramente, num espaço fugaz no tempo, esquecendo que antes há a história magnífica de quem amo e, logo em seguida, o faz entrar para a eternidade!
    Quanta falta de importância tu tens! Quanta mediocridade tu representas!
    Apesar de tua ação ser sempre inoportuna, jamais levarás o legado de pessoas do bem!
    Morte, como és imbecil! Já não tens qualquer relevância! E, cá pra nós, tu nunca terás!

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    1. É sempre bom olhar a morte com os olhos que ela merece. O ideal seria que de fato pudéssemos todos morrer com 100 anos “fora da tomada”. Nunca me conformarei com a morte de minha companheira de alma e de trabalho. A minha grande meta é lembrá-la com alegria. Um dia conseguirei

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